1 de nov. de 2010

Canção Pra Ninar Segredo



Não fecha ainda os teus olhos

Que estou compondo canções

Que bem te façam dormir.

Deixa eu trançar teu cabelo

Pôr este laço risonho

Pra que apareças bonita

No sonho.


Dá mais um pouco de calma

Pra sonolenta menina

Anjo da noite e da guarda

Que um verso ainda me falta.

Sei que ela é toda cansaço

Mas posso ainda ofertar

O meu braço.


Deixa eu contar-te um segredo,

Já que não ouves pois dorme:

Essa canção é um rodeio

Para assistir o teu sono.

Ó paixão, pra sempre dorme

Que por teu sono troquei

A lua enorme.



2 de out. de 2010

Bordadeira




Enquanto a mulata borda

A vida parece rodar,

rodar,

rodar...

No espiral que ela borda

Na borda do pano, devagar...

Linha vai,

agulha vem...

E a mulata a bordar

o espiral que a rosa não tem.

8 de ago. de 2010

Balé


À Marcela Reichelt


Com a tríade de Vênus
risca em pele
um relevo de enlevo,
um pulo.
Palas, pelo palco
em paz de corpo,
em pêlo.
Freme!
Inquieta-me mais,
tez que dança-se no breu,
que despe-se na luz
e renasce-se
na aurora sem brilho.
Liberta de todo riso,
apenas dissolve-se
num deslizo giocondiano.
Lança estacada um desvelo,
olhar de quem não se veste mais,
e retoma o eterno bailado de antes
eclipsado por detrás do escuro.

21 de jul. de 2010

SOB(RE) LÁGRIMA




Bastou um olhar,

pr’eu adentrar em teu rio-alma

e ficar ilhado em tua amêndoa.

Cativo no indefinido.

Bem no centro:

por onde desliza toda cor que vês.

Bastou outro olhar,

pr’eu banhar-me nessas linhas espectrais,

escorregar nesse corte verde-gaio,

e inclinar-me para todas as margens

do teu rio maior que o mar.

Bastou um querer,

pr’eu volver para o lado mais doce

e ficar preso em tuas celhas negras

que me trancaram entre pálpebras.

Bastou um sentir,

pro rio então se converter salgado

e formar-se uma correnteza inflamada

que carregou-me consigo para fora,

fazendo-me deslizar pelo teu rosto

e dessalgar em tua boca.

Naveguei em teu rio-alma.

E me bastou.



3 de jul. de 2010




Deitada a sonhar
Na que é de dormir
Na que era de amar.

1 de jun. de 2010




Sem o saber, um objeto último

Da primeira tarde da era

(que salva a tudo)

E de saia, uma graça!

Num céu vermelho, despetalando

como rosa – o mundo era salvo

por duas rodelas, fritando

anseiando uma pela outra

fazendo pedidos dissolvidos

no quente borbulhar de uma frigideira.



AR-TE-AR




Desde pintor era moleque.
Disto nunca passou.
Com suas borboletinhas
Borradas, preto e brancas
Que não levantavam vôo.
Ah, se fossem de plástico.
Quem dera tivessem cor.
Desde borboleta era o branco
de quem Deus costumava caçoar.
Mas era muito diante do pouco
E da vida, ainda por pintar.